Maria amava Lívia,
que amava Vicente, Adriano e Paulo.
Os dois últimos amavam Ferdinanda,
que amava Cláudio, Gastão, João e Vicente.
Adriano era amado por Lúcia (que amava Felipe) e Daniela e amava também Luana,
Que o amava e amava Abelardo,
Que a amava, exclusivamente.
Felipe amava todas as garotas, e muitas delas o amavam.
Gastão amava Dinalda, mas também amava Joana.
Aonde foram as cores que coravam? – descoraram.
Aonde foram os labores que laboravam? – deslaboraram.
Aonde foram as flores que floravam? – desfloraram.
Aonde foram os amores que amavam? – desamaram.
Aonde foram os esplendores que esplendoravam? – desesplendoraram.
“Lá estava a imagem bizarra sentada á mesa. Me sorriu um sorriso sujo e perturbador. Questionei quem ele era e ele me respondeu enquanto retirava a própria cabeça e pondo-a sobre a mesa:
- Sou Mad Hatter, Querida Sweetheart e estou ao seu total dispor – Mas eu melhor que ninguém, sabia que aquilo não era bem verdade.
Eu observei a figura bizarra de Mad Hatter colocar de volta sua própria cabeça e tomar um longo gole de seu chá. Encarou-me ainda sorrindo e me ofereceu da bebida:
-Não gostaria de um pouco de muito de chá-de-dia-da-morte?
- Na verdade senhor Hatter, estou aqui para pedir-lhe um favor…
-Mas não gostaria de provar do chá? –me entregou uma xícara quebrada, de modo que todo o líquido do interior deveria estar derramando, mas não estava.
Peguei a xícara de chá-de-dia-da-morte (fosse lá o que isso fosse…) e continuei
-Sim… Mas, ainda preciso que me faça um favor. –ele levantou os olhos (um azul e outro lilás) e deitou a cabeça de lado, como um cão as vezes faz.
-Qual tipo de favor?
-Preciso que mate o Coelho Cinzento para a Rainha.”
Há doze anos aconteceu algo que me transformou. Ou foi há onze, anos? Não sei ao certo. Não tenho noção de tempo ou de ordens dos fatos, pois tudo fica gravado na minha memória de forma aleatória, cabendo a mim juntar tudo de uma forma lógica. Esta segregação de conteúdo mental não me acompanhou a vida inteira, isto eu sei bem. Foi depois do acontecimento em questão que eu passei a me tornar este retardado, mas um retardado lúcido e sensível. Peço desculpas, amigo leitor, por não conseguir apresentar os fatos numa ordem bem delineada. Não é a minha memória falha ou meu pensamento fragmentando que eu quero explicar neste meu relato, mas o dom que eu adquiri na mesma época que fiquei como lhes descrevo. Só menciono minha deficiência para lhes pedir um pouco de paciência com a inexatidão e desconexão tipicamente minhas que estão aqui presentes.
Eles Me Chamam de Corrompido é um conto que escrevi no início desse ano, e que até hoje continua sendo um dos meus favoritos. Ele é dividido em três partes.
Ele se passa num planeta fictício chamado Acáci (esperem mais notícias sobre isso nos próximos meses).
A reprodução, total ou parcial, desse conto é estritamente proibida sem a autorização do autor (Gustavo Diógenes de Oliveira Paiva). Todos os personagens pertencem ao autor, ou seja, todos os direitos reservados.
Eu disse que iria postar isso somente amanhã, mas adivinha, eu menti. Vou postar hoje simplesmente porque atingimos a marca de 6000 visitas, o que me deixa feliz e com vontade de tentar fazer um modelo de DNA (?).
∞∞∞
Eles Me Chamam de Corrompido
por Gustavo D. Oliveira
Terceira Parte
A cada dia que se passava, a mãe-árvore enfraquecia, cada vez mais doente.
Nos primeiros dias, a terra e as pedras ficaram cada vez mais pesadas e menos nutritivas.
Não mais forneciam a energia que a mãe-árvore necessitava.
Vagarosamente,enfraquecia.
Depois, parou de responder. Não mais grunhia, não mais gemia. Suas folhas cada vez mais lentas, mais finas, mais negras.
Não mais voavam com a antiga graça, não mais exalavam a antiga energia.
Lentamente, enfraquecia.
Suas raízes perdiam o brilho, seu tronco descascava.
Enfraquecia.
A cada dia que se passava, menos animais participavam da coleta de terra e de pedras. Para onde eles foram?
Ninguém sabia.
Lentamente, ela enfraquecia.
Enfraquecia.
Enfraquecia.
Enfraquecia. Leia mais…
Eles Me Chamam de Corrompido é um conto que escrevi no início desse ano, e que até hoje continua sendo um dos meus favoritos. Ele é dividido em três partes. Postarei uma hoje, uma amanhã e a última na terça. Se algum de vocês tiver descoberto como entrar no Mausoléu, talvez já tenha lido esse texto.
Ele se passa num planeta fictício chamado Acáci (esperem mais notícias sobre isso nos próximos meses).
A reprodução, total ou parcial, desse conto é estritamente proibida sem a autorização do autor (Gustavo Diógenes de Oliveira Paiva). Todos os personagens pertencem ao autor, ou seja, todos os direitos reservados.
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Eles Me Chamam de Corrompido
por Gustavo D. Oliveira
Segunda Parte
Horas depois, os animais desistiram da busca. Já era tarde, o ser corrompido havia fugido.
Os responsáveis pelas buscas voltaram à mãe-árvore, pediram perdão, e a única resposta foi um longo e arrastado grunhido. Todos sabiam seu significado, e quando o ouviram, relaxaram aliviados.
Hoje ela estava especialmente forte, sacrifícios não seriam necessários.
Porém, alguns animais não relaxaram de fato: os animais da terra.
A folha antes-imaculada-agora-corrompida havia caído na terra, o que significava que o corrompido estava na terra. Mas todos os terrestres estavam presentes na cerimônia, nenhum foi encontrado fora dela. O que estava errado?
-Mãe-árvore, por favor, seja mais específica! Por favor, necessitamos da sua sabedoria para realizar seu sonho! – gritaram.
A árvore novamente grunhiu. Não mais tinha a energia necessária para falar. Os corrompidos haviam sugado quase tudo.
Os filhotes choraram. Quando o corrompido finalmente se mostraria, quando ousaria mostrar sua cara imunda para finalmente confrontá-los? Por que se esconde, ó corrompido? Por que nos atrasa, por que nos faz sofrer com sua maldade profunda e natural?
Enquanto todos odiavam o corrompido, ele nadava pelas profundezas, abaixo da terra, abaixo de todos e de seus olhares, perguntando-se as mesmas coisas e muito mais.
Por que sou fraco? Por que não os confronto? Por que os atormento com minha existência? Por que não sou como eles? Por que não me entendem? Por que vocês não me aceitam?
Continuou nadando para as profundezas, suas profundezas, procurando sua alma, procurando sua força interna, procurando seu motivo, e uma solução.
Finalmente, parou. Olhou para cima, não mais via a luz do sol. Tinha que voltar, ou morreria sem ar. Não mais agüentava suas próprias profundezas, cruel demais ele era. Não podia se suportar. Leia mais…
Eles Me Chamam de Corrompido é um conto que escrevi no início desse ano, e que até hoje continua sendo um dos meus favoritos. Ele é dividido em três partes. Postarei uma hoje, uma amanhã e a última na terça. Se algum de vocês tiver descoberto como entrar no Mausoléu, talvez já tenha lido esse texto.
Ele se passa num planeta fictício chamado Acáci (esperem mais notícias sobre isso nos próximos meses).
A reprodução, total ou parcial, desse conto é estritamente proibida sem a autorização do autor (Gustavo Diógenes de Oliveira Paiva). Todos os personagens pertencem ao autor, ou seja, todos os direitos reservados.
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Eles Me Chamam de Corrompido
por Gustavo D. Oliveira
“Para que lutar? Pela homogeneidade de pensamento? Para dominar? Ser poderoso?
Ora, que tal viver para corromper? Que tal viver pelo mero viver?”
Primeira Parte
Imponente, soberana, indiscutível, lá estava a grande árvore, observando todos que viviam no seu vasto reino.
Seu olhar penetrante e firme percorria todos os seres, répteis, anfíbios, mamíferos, insetos, peixes. A ela subordinados, tinham seus destinos inscritos em suas folhas brancas e imaculadas.
O sol lentamente se levantava, trazendo consigo mais um feliz e prazeroso dia.
Os animais começavam também a se levantar, esfomeados.
Baratas carregavam terra em suas pequenas costas. Cães, além de terra, traziam pedras na boca. Aves transportavam pedras nos bicos e peixes levavam-nas para a superfície. Vacas transformavam grama em adubo, todos trabalhando em conjunto, visando somente um objetivo: alimentar a mãe-árvore.
Assim que os pesados carregamentos tocavam as frias raízes da árvore, desapareciam, absorvidos pela esfomeada árvore. O fruto do seu árduo trabalho sendo usado para uma boa causa – era o que pensavam os carregadores.
Horas após, a árvore se satisfazia. Todos assistiam, entusiasmados, os sinais que diziam que a árvore não mais necessitaria de alimentos.
O vento soprou forte, e os fortes e grossos galhos da árvore balançaram. Deles caiu somente uma única folha branca.
Lentamente ela percorreu os cento e setenta metros que separavam o galho do chão. Cada segundo mais doloroso que o outro para todos os presentes, cada segundo mais longo que o anterior. Leia mais…
Meu nome é Júlio, tenho oito anos.
Neste momento papai está na igreja.
É lá aonde ele costuma ir para rezar para papai do céu.
Ele vai quase todos os dias, menos sábado… quarta… segunda.
Ele costuma demorar um pouquinho, acho que é mais ou menos umas duas horas… Isso mesmo, duas horas.
Esses dias eu vi o pastor da igreja dele, ele tava com um carro novo, enorme, igual nos desenhos de carrinhos de corrida, era até um que eu tinha pedido para papai comprar, mas ele disse que precisava ter muito dinheiro para ter um.
Agora estou aqui pensando: Aquele senhor deve ser muito rico, comprou o carro mais perfeito do mundo, mas nem trabalha e nada, só é pastor. Deve ser uma benção de Deus, toda essa riqueza, uma benção e tanto.
Já sei! Serei pastor quando crescer.
Um dia desses, semana passada se não me engano, eu estava andando perto do meu colégio, quando recebi um singelo panfleto de uma das várias igrejas neopentecostais existentes nessa capital comum. Não lembro bem qual a igreja e muito menos o que ele dizia exatamente, mas duas frases me chamaram a atenção. Uma delas é a manjada, porém aterrorizante “O fim está próximo”; a outra, “Hoje em dia, as pessoas estão com cada vez menos Deus; a imoralidade está por aí, corrompendo a nossa juventude”.
A segunda frase me decepcionou. Não que eu acredite ou desacredite em Deus, isso está fora de questão. Mas, segundo o senso comum, “Deus é amor”. Então, como alguém pode reclamar que há menos amor no mundo numa época em que os ideais de igualdade e respeito às diferenças são cada vez mais difundidos e apreciados? Não, com certeza há algo errado com aquelas pessoas. Ou elas estão muito desligadas da realidade e entregaram a compreensão dela para um pastor/padre/político ou então Deus não seria amor.
“Deus não ser amor? Mas isso está na Bíblia!” me diria alguém. Mas calma, deixe-me explicar.
“Mistérios da meia-noite que voam longe, que você nunca não sabe nunca se vão se ficam quem vai quem foi”
Nunca tinha escutado tal música na vida, exceto uma vez na casa do meu avô. Ela sempre tocava numa vitrola antiguíssima, talvez da década de 30. Ele morava por aqui perto e ainda moraria se não tivesse morrido naquela noite trágica de 92. O centro da cidade à noite não é um bom lugar para andar sozinho, ainda mais quando se está desesperado por um ônibus. Agora essa música tocava num carro estacionado ali perto.
Era um carro preto, um Fuscão preto feito de aço. Parado ao lado estava o seu dono, um velho barbudo com camisa de lenhador e uma boina francesa. Tinha um olhar maligno e diabólico. Eu só queria ir para casa, a qualquer momento eu o imaginava me roubando, me espancando e até me bolinando! Eu balançava meus pés a todo instante…
“Você aí!” ouvi em alto e bom som. Era ele. Me tremi. Ai meu Deus, ele ia me espancar!
“Você mesmo, cara!” ele me chamou de novo.
“Oi…”
“Sabe quem eu sou? Sabe quem eu sou cara?”
“Não…”
“Eu sou aquele que vai acabar com tua raça, cabra da peste! Vou pegar minha peixeira aqui!”
“Vou chamar a polícia!”
“Polícia? Seja homem, venha comigo no mano a mano!”
-Você vai mesmo me abandonar, mesmo depois de tudo o que passamos? – perguntou 001 enquanto eu o carregava para seu novo lugar temporário, vulgo, a cadeira perto do armário.
[Uma sala de interrogatório, lâmpadas piscando, segmentos da minha mente assitindo além do espelho falso.]
-Obviamente que sim. Tudo tem um fim, e o seu chegou… Ou, talvez, o fim de uma parte da sua estória. Não sei. Mas não confie na minha palavra. Nunca confie nela. Ambos sabemos que isso é altamente improvável. Você provavelmente vai ficar apodrecendo pouco a pouco no armário durante os próximos anos até que sua amarga e cruel e morte chegue.- respondi de forma ríspida e cruel.
-Mas… Mas… Eu estava lá quando Acáci nasceu… E olha que ele nem tinha esse nome na época!
[Memórias chegam para assistir à sessão. Torcem para que eu continue na inércia.]
Coloquei com cuidado 001 na dita cadeira e comecei a preparar o sistema para a instalação. Tanto 001 quanto a parte ritualística do meu incosnciente coletivo olharam para mim com uma cara feia.
-Eu usava umas roupas nessa época também. Eu não as poupei também.
-Mentira. Você continua usando-as. Você nem usa as roupas novas que sua mãe comprou.
[O interrogador me ameaça com ma faca de mudanças. Arranco-a da sua mãe e a engulo de uma única vez. Seu rosto amorfo mostra uma mistura de si mesmo; um mero fragmento mental.] Leia mais…
De onde eu vim
Não existe tempo
Os minutos são horas eternas
Nossas palavras são longas
Tem cheiro de sinfonias
Soam como perfumes
Quero voltar
Mas não tenho como
Tenho como voltar
Mas não quero
Só faço ouvir
As fragâncias da saudade
[...] Norton esperou por algum tempo. Nenhum sinal do sujeito de azul nem muito menos de nenhum policial. Alguns minutos depois, um outro sujeito, desta vez usando um chapéu de aba grande e um longo sobretudo preto que cobria até mesmo seus pés, entrou na cabine e sentou-se no banco ao lado. Norton respirou aliviado, podia finalmente observar a silhueta do rapaz sem se preocupar com fundos azuis. Um apito soou na estação e as paisagens na janela começaram a se mover lentamente. Logo depois estavam todas correndo. Enquanto retirava o chapéu, o homem perguntou:
- Tem fósforos aí, camarada?
- Engraçado você perguntar isso.
- Por quê?
- Porque eu não tenho nenhum.
- Mas isso não é engraçado.
- É, eu sei que não é.
- Ahn. Cara, semana passada eu sonhei que estava correndo numa pista de atletismo. Ela era azul e não tinha fim. O chão queimava meus pés.
- Hm.
- Você acha que isso significa alguma coisa?
- Não sei.
- Esse sonho anda me perturbando.
- Escreva sobre isso, talvez você se sinta melhor.
- Ótima idéia, camarada. Tem uma caneta aí?
- Não.
- Acho que tenho um lápis aqui. Você tem papel aí?
- Tenho sim.
Estendeu um panfleto amassado ao alcance do homem. Enquanto ele escrevia suas aflições no verso da folha, Norton leu o anúncio gravado em letras garrafais:
VOCÊ PODE SE TORNAR UM CAMPEÃO HOJE MESMO.
VISITE NOSSO CENTRO DE ESPORTES
CONFIRA AS MODALIDADES OFERECIDAS
TEL. 12000-XXX
- Talvez você devesse ler o outro lado do papel, sugeriu Norton.
- Ahn.
Houve uma pausa silenciosa por alguns minutos.
- Acho que vou descer na próxima estação, camarada. Obrigado pela sugestão e pelo papel. Uma pena você não ter fósforos aí.
- É, uma pena.
- Até mais.
- Até.
O homem se levantou. O trem ainda estava em movimento, mas o sujeito parecia ter um senso de equilíbrio fantástico. Não se apoiava em nada para andar e suas passadas não faziam o mínimo barulho. Quando o trem chacoalhou nos trilhos e finalmente parou, Norton percebeu que o panfleto que o sujeito usara para escrever estava no chão, próximo aos seus pés. Quando o apanhou, viu apenas 4 palavras.
Eu não tenho pés.
E foi aí que Norton percebeu que o homem estava flutuando.
As pessoas sempre sonham com aquilo que não têm.
xxx