Recentemente, fui convidado, junto com Marcos Monjardim e Leonardo de Barros, pela Livraria Nobel da Salgado Filho para participar como palestrante no Café Literário que estão organizando. No dia 31 de Janeiro, última terça-feira do mês, a partir das 20 horas, estaremos lá para falarmos sobre nossas obras, detalhes de como foram escritas e para responder a perguntas de qualquer pessoa que se disponha a fazê-las. No caso, falarei sobre meu livro, Acáci – Mundo 17.
Será um encontro bem informal e aberto, de maneira que qualquer um pode, a qualquer momento, levantar a mão e perguntar o que quiser. Descontos serão oferecidos no meu livro (Acáci – Mundo 17), no de Marcos Monjardim (Peregrino) e em um dos de Leonardo de Barros (Solteiro em 30 Dias), e certamente poderemos autografá-los. Para completar, um exemplar de cada livro será sorteado ao final do encontro.
Espero vê-los lá. Certamente será um encontro interessante.
Gustavo Diógenes.
Título de nobreza
A vontade, a ver tarde sua razão coatora.
Um polígono, em pontiaguda gravidade.
Sussurro quatriferante dissocílabo paquera.
Na cidade, a verdade sem paixão se proverba.
Dum livreto, em postura de vanguarda, a severa.
Lagarto sem porquês. Pedra a pedra, quem te vê.
Facas de açúcar feridas e desculpas.
Já maçãs de areia branca, no rosto filha da duquesa.
Fendaval de entra e sai, momento puro de nobreza.
Num universo tão espaço, tão poucas coisas nos fascinam.
Lançamento de Acáci Mundo 17
Embora vivamos no presente e estejamos caminhando em direção ao futuro, muitas vezes buscamos respostas para perguntas sobre nosso passado e origens. De maneira similar decorre este livro: inicia-se pelo começo, vai ao futuro, e termina no passado, contando durante o processo as vidas de pessoas que recusavam-se a permitir um fim prematuro às suas vidas e às de outros.
Este livro conta uma história sobre os feitos da humanidade e suas consequências no espaço-tempo, encobrindo um passado que não pôde ser registrado e um futuro que, dependendo do referencial, pode já existir e que chamamos de presente. Simultaneamente, conta uma história que, para os envolvidos, dificilmente está envolvida conosco, que nos aborda apenas tangencialmente. Em um nível ainda diferente, Acáci – Mundo 17 narra a história da descoberta e elucidação de uma peculiar espécie de ser vivo que ocorreu paulatinamente durante séculos, envolvendo as vidas de um número relativamente pequeno de pessoas, mas que tiveram suas vidas alteradas drasticamente pela dita espécie.
Quando os humanos envolvidos com essa história iniciaram o projeto que levou à existência do mundo onde ela se passa, tinham muitos questionamentos em mente: quem somos nós? O que é viver? Até onde um ser vivo pode ir pelo direito de permanecer vivo, ou para garantir a segurança e continuidade do que ama? Após o término do experimento podiam sem dúvida dizer que aprenderam muito, que muitas perguntas foram respondidas, que suas vidas mudaram drasticamente de rumo. E, como cientistas, admitiram que um número muito maior de perguntas surgiu no processo. Assim é a ciência.
Acáci – Mundo 17 foi escrito por Gustavo Diógenes, um dos membros fundadores da Sociedade dos Cadáveres Mortos, e será lançado no dia 29/09/2011, às 19h na Siciliano do Midway Mall (Natal/RN). Mais informações serão fornecidas em breve neste site.
É verdade, eu sei
Quando eu escuto você tocar Me esqueço de tudo isso que é ruim Mas tudo isso ainda estará lá É verdade, eu sei Quando me perco em pensamentos E minha esperança não se resume a um lamento Tudo isso ainda estará lá É verdade, eu sei Não podemos mudar e fingir Que as coisas belas existem? Tudo o que não peço é ilusão Para poder apagar de uma vez A chama dessa decepção É verdade, eu sei Não deveríamos continuar Pois já não se sabe o final de tudo? E não estamos esperando pelo fim do mundo? Que pra você ainda está no começo Para mim acabou antes mesmo disso É verdade, você sabe, eu sei (aproveitando o espaço para fazer uma publicidade indesejada, visitem o meu blog pessoal: http://ruinas-humanas.blogspot.com/. Lá posto coisas que não acho que não se encaixam aqui. Também falarei nele sobre alguns projetos futuros, entre eles um livro que se chamará Tristes Verdades... Fiquem ligados!![]()
Stella was a diver and she was always down
Ela chorava. Ela chorava e que mergulhava de cabeça no oceano das minhas vergonhas. Mergulhava feroz, com uma agressividade controlada, sublimada em paixão. Porém, ao mesmo tempo, chorava. Ameacei parar, mas ela implorava cega por isso, desafiava a minha masculinidade não-merecedora de tamanha tortura moral. Oh, como eu queria que ele desmanchasse! para que eu não me submetesse a um prazer tão culposo.
Consigo retomar o controle do meu corpo e então me afasto. Ela, porém, segura a minha perna e quase me perfura com suas unhas grandes, me fazendo gritar por um segundo e cair no chão. Nem mesmo as longas franjas de seu cabelo escuro e assanhado escondiam a tristeza e a urgência daquele rosto que agora se erguia do vão entre meus pés. Seu rosto, outrora branco, estava vermelho e molhado. Veio rastejando rápida até mim de quatro, tão rápida que mal percebi que seus lábios, borrados de batom vermelho, já estavam a uma distância desprezível dos meus. Seus olhos azuis, assim como o rosto, também estavam vermelhos e chuvosos. Por um segundo, pensei que eles largariam um dilúvio para me punir por um tipo de prazer tão baixo, por extrair endorfina de seu sofrimento.
Sim, aquilo era-lhe um fardo. Ela mergulhou em mim não por prazer, mas por necessidade, por uma terrível obrigação fisiológica. Era uma mergulhadora compulsiva, já fora em todos os mares e lagos possíveis, mas não conseguia nunca estar em terra firme. Mal saía de uma lagoa, já partia para a próxima. Desnecessário dizer que mergulhadoras não eram bem vistas pelos rapazes.
“Por favor… Não me deixe…” sussurrou-me, enquanto punha seu rosto ao lado do meu, seu queixo no meu ombro. “Por favor, por favor!…” dizia, enquanto chovia mais um pouco. Seria-me fácil livrar-me daquela situação, se não fosse um entrave: eu gostava dela. Sua fragilidade, seu corpo perfeito tomado pela tristeza de uma neurose. Sim, ela era bonita, mesmo em cada imperfeição, em cada sarda ou sinal. Uma voz fraca, mas esperançosa, que pairava minha cabeça dizia que eu era um homem viril o bastante para lhe satisfazer e curar-lhe neurose. Uma idéia ridícula, claro, mas que era bastante prazerosa, uma vez que eu não era grande coisa. Eu não tinha grandes músculos, era magro com uma barriga meio saliente.
“Por que eu não deveria?” perguntei, dessa vez, enquanto passava a mão pela lateral de seu torso e acariciava uma tatuagem que havia naquela região, ansiando pelas palavras que eu queria ouvir.
No entanto, ela apenas pegou minha mão e pressionou suas unhas contra a minha palma. Tudo dela era assim, implícito. Não podia dizer se era verdadeiro ou mentira o que dizia. Não, não sou desses que espalham aos quatro cantos do mundo que as mulheres não são confiáveis ou mentirosas. Os homens é que confiavam muito nelas, achando que elas não são vítimas embrutecidas pelo tempo e pela erosão, rios que não sofriam da poluição.
“Mas… o que eu tenho de especial?” perguntei outra vez.
“Você recuou.”
“Ah… isso?”
“É. Ninguém nunca fez isso.”
“Você estava chorando, Stella.”
“Eu sei… me perdoe” e ela se jogou em meus braços. “Não faço isso por que quero, é uma compulsão… Sinto que algo precisa preencher o meu vazio” e tornou a chorar de novo.
“Eu gosto de você” falei, meio que sem pesar as palavras e suas hipotéticas conseqüências. Por um segundo, desejei que ela não levasse essas palavras tão a sério.
“Você e todos os caras falam isso… Mas falam que eu sou uma vadia, pelas costas. Você deve me achar uma, né?” questionou-me, soluçando e me deixando num dilema. Ora, sabia que a culpa não era dela, no entanto, ela causou-me uma primeira impressão que era difícil de mudar. Já se quebraram todos os preconceitos, menos o de um homem para com uma mulher conhecida por muitos. Por outro lado, os outros deveriam ter respondido que não.
“Não me importo com isso”
“Sério? Você me entende?”
“Sim” eu a entendia, embora achasse o que ela fazia desagradável. Mas deveria haver um motivo, motivo que poderia ser superado. Eis então que ela me abraça, um abraço caloroso, gentil.
Eis que olhei para o relógio. Era quase hora de ir. E a dúvida ainda navegava em meu mar. Mas juro que vou lutar.
Ruínas Humanas
Centenas de pessoas bonitas andando pelos shopping centers, tão belas e perfeitas que mal permitem se olhar ou tocar. Embora as roupas, os rostos e os cabelos sejam diferentes, elas serão iguais num ponto: terão uma aparência invejável aos nossos padrões atuais, tão humanos e falíveis.
Já não se vende mais nada que cause mal. Cerveja? Engorda, ninguém mais compra. Hambúrgueres? Só de soja e olhe lá, só com óleo natural extraído sem gorduras. Refrigerantes? Esses xaropes de açúcar, corantes e acidulantes, que entorpeciam nossas crianças a rejeitarem coisas mais saudáveis? De jeito nenhum.
Falando nas crianças, talvez elas não sejam mais crianças. Já não há mais aquelas típicas brincadeiras infantis nas pré-escolas. Não há mais carros de brinquedos ou nenhum sinal de bonecas nos quartos. Não são mais elas que vivem correndo de um canto ou outro nas igrejas ou nas reuniões de trabalho, mas são elas que ficam sentadas, perdidas em seus mundos virtuais. Não há mais amigos de infância, aliás, não há mais amigos por que não se pode confiar em mais ninguém. O amigo de infância é aquele que sabe das suas fraquezas, e isso não é bom pra ninguém.
Ninguém mais precisa trabalhar. As tecnologias derrubaram de vez a utilidade que certas pessoas antes possuíam. Essa legião de desempregados poderiam estar nas ruas, poderia se dizer, mas de fato não há ninguém nas calçadas, somente carros que correm velozmente de um ponto ao outro. Falando em calçadas, elas ainda existem, mas estão pouco a pouco desaparecendo. Dizem que há ladrões e criminosos nas ruas, armados até os dentes e desejosos de matar e violentar inocentes para possuir qualquer coisa que lhes convém. Não muito diferente dessas pessoas normais, que não agridem os passantes mas agridem a si mesmas para fazer o mesmo.
Prédios gigantescos como montanhas sobre montanhas se erguem de um solo cada vez mais exausto e frágil. Cada janela, uma história de vida que pouco aconteceu. Não há mais por que trabalhar, mas é preciso estar sempre ocupado para evitar que chegue-se a conclusão de que “nós todos somos inúteis”. Faça qualquer coisa. Liguem a televisão ou a internet. Sexo hardcore, pornografia, isso não é mais chocante. Num só prédio, há mil apartamentos e ninguém se trata de abrir a porta.
Refúgio na natureza? Impossível. A mancha urbana já se espalhara como uma colônia de bactérias infectando o corpo cada vez menos nu da terra. As crianças? Muitas delas só viram árvores nos desenhos. É a Era da Solidão: num ambiente cada vez mais empobrecido, o Homo sapiens sapiens se vê cada vez mais sozinho de uma Terra já cansada.
Nessas condições, o suicídio não é raro. Chega até mesmo a ser um protocolo. Caso alguém se desconecte por mais de 24 horas, já se sabe: ou enlouqueceu ou morreu ou se matou. Pelo menos, há alguma esperança… Aquelas fotos de 50 anos atrás guardadas nos servidores digitais mundo afora, a única prova de que tudo um dia foi diferente,
Só o que restou, ruínas humanas.
Natureza Humana
Fumar
Beber
Jogar
Foder
Viva a humanidade e todos os seus vícios disfarçados de Bem Comum travestido
Um mal, para o Bem, é inteiramente válido
Os fins justificam os meios, disse Maquiavel amado
Já eu
Eu quero que toda a bondade e toda boa-educação e bom-mocismo se fodam
Só assim não precisaríamos esconder
Que só queremos fumar, beber, jogar e foder
Mas não! Temos que fingir sublimação!
Fingir que um beijo da mais bela mulher
Não é nada perto de um bom livro
E que nossas vidas não são patéticas
E que agindo certo, nada de ruim irá acontecer a nós?
Será? HAHAHA! Ledo engano.
Nada mais me engana
Nem nossa desprezível natureza humana
A Porta
É esse o endereço certo?, pensei
“Se chamares, serás atendido”
Venho fazendo isso desde que
[cheguei aqui de manhã
Mas até agora não me atenderam
Bati palmas, gritei, apertei a campainha, bati
E nada
Pelo meio dia, já estava cansado
Aì apareceram muitos outros que queriam
[a mesma coisa que eu queria também
“Se fizermos tudo junto, talvez abram a porta” falei
E a gente gritava e mais gente se juntava
Procurando por aquele cuja porta nos abriria
Nós dançamos, isso ajudou a passar o tempo
Mas nada no fim ocorreu
O sol dava o seu lugar para a lua
E já havia uma multidão na rua
Fizemos então um bloco de rua
Mas aí vieram alguns homens que com sua oratória
Pregaram que só havia um jeito, o jeito era seu
Começaram então a se dividir em grupos
Eu entrei em qualquer um
Desesperado, eu só queria entrar
E eles começaram a brigar
E eu briguei também, mais por que eu
[precisava acreditar
Então vieram outros que disseram
Que não havia ninguém do outro lado
Que nós fomos totalmente enganados
Esses foram os primeiros a morrer ou a sair
Pois tinha que haver alguém nos esperando ali
Deu meia-noite e a briga só aumentava
E ninguém se lembrava mais da porta fechada
As pessoas foram cansando e esvaziando a rua
Mas eu ainda pensava e pensava
Se a porta ainda seria aberta
Na rua já vazia só havia eu
Bati a porta três vezes pela última vez e ninguém respondeu
Então…?
Não sei mais…
O Touro e o Rodeio
Está um sol quente lá fora
O céu claro e a festa no ar
Mas não para mim, muito embora
Ninguém há de se importar
Pelas ruas as pessoas me saúdam
Como se eu fosse imponente
Mas só enquanto não vou para
Aquele lugar apertado e quente
Tão diferente deles sou eu deles
Que juram que eu não tenho consciência
Não é algo novo; repetem isso
Com uma cruel frequência
Como então sinto esta dor agora?
O que fiz para isto merecer?
Só por termos não as mesmas patas
Vou ter que infelizmente morrer
Que me dominem agora então
Enquanto a lança do toureiro furar
Outros depois de mim virão
Para que possamos finalmente descansar
A mulher na porta da igreja
Seu nome era Rosa. Seu cabelo era uma palha negra quebrada há tempos pelo vento e pelo pó de asfalto; sua pele morena estava cheia de feridas e cortes e arranhões; suas roupas eram trapos. Era domingo, hora da missa. Na igreja dos pobres, onde o público vinha de carro e fazia questão de estar bem arrumado, só faltava lugar para ela e para os outros mendigos que ficavam por lá. A privação a deixou num estado quase onírico, mal distinguia realidade de um sonho.
O sermão de hoje era sobre o Sermão da Montanha. Pobre Jesus, sua imagem na cruz em nada combinava com aqueles olhares orgulhosos das madames e com a pompa daquela catedral. O padre proclamava “bem-aventurados os pobres, pois deles é o reino dos céus” e Rosa sonhava, sonhava… sonhava com o mundo em que sua pele seria macia e branca, seus cabelos lisos… Mas seria ela bem aventurada? Só poderia ser uma piada de péssimo gosto. Nem o humor mais negro chegaria a tal ponto.
Ela viu uma luz que se perdeu, queria chegar até lá… Queria subir ao céu, queria subir ao altar. Mas na casa do Senhor não existe Satanás. Na igreja dos pobres, ela teve que ficar do lado de fora.
Cinderela Popozuda
Vancineusa era uma menina pobre mas sexualmente consciente, como todas as suas amigas naquela idade e naquele bairro. Os bailes funk da vila de Ponta Negra, o contato extenso com estrangeiros e todas as histórias inceptaram uma ideia na sua cabeça: ela queria casar com um gringo. Atributos para isso não lhe faltavam: ela rebolava como uma verdadeira stripper, o remexer de sua bunda carnosa faria até mesmo o papa desistir de seu voto de castidade.
Ela não era lá muito bonita, seu cabelo loiro nórdico de farmácia era vários tons mais claro que sua pele cor do pecado e em certos dias seu rosto era tão áspero quanto a pele de um tubarão. Mas isso não importava para o seu alvo, se sabia exatamente o que eles queriam. Quando não eram porras-loucas que vinham para a cidade usar drogas e putas, eram homem recém-divorciados que precisavam de um pouco de diversão que não conseguiam em suas terras, fosse pelo alto preço cobrado pelas garotas de programa europeias ou pela interminável guerra dos sexos. Entre 100 euros por sessão após sessão, Vancineusa esperava.
Naquela noite de Janeiro, o Sr. François Van Coke aproveitava seus últimos momentos com a maconha legalizada de Amsterdã antes de embarcar para uma insólita cidade na esquina da América do Sul. Recentemente tinha se separado de sua esposa após descobrir que ela o traía com o faxineiro mexicano de sua casa. Seguindo os conselhos de seus amigos, ele decidiu viajar para liberar sem precisar se preocupar com muita coisa.
Van Coke chegou no dia seguinte à bela cidade do sol. Passou o dia fingindo que prestava atenção no city-tour, pois só estava interessado no que viria quando a noite vadia chegasse. Sete da noite, foi para uma parte de Ponta Negra onde (diziam os boatos) tinha “weed” a ótimos preços. E mulheres, claro, muitas mulheres. Alguns policiais que deveriam combatendo as drogas estavam lá entupido seus narizes de cocaína enquanto alisavam as bundas daquelas vadias feias. Van Coke, porém, não era homem de festa barra-pesada, ficou a noite inteira fumando um no teto enquanto tomava tragos de whisky e selecionava as mulheres com quem queria passar a noite.
Entre elas, estava Vancineusa. Não era efeito do álcool, mas escolheu-a por último, por que o melhor vinho é o que vem no final da festa. Horas depois, levou-a para a cama e ali fizeram o que um homem e uma mulher fazem numa cama à noite. Não queria admitir para si mesmo, mas estava apaixonadinho por ela, pois ela não era como as mulheres holandesas. Ela era tão feia que não se importava com a aparência e ele gostava disso, de todo esse despojo. Com a insinuação certa e os flertes cirurgicamente calculados, ela o convenceu a tirá-la daquele inferninho de país. Merecia coisa melhor, lutava muito para sustentar a família, queria conhecer o mundo, seu sonho era visitar Paris, dizia.
E assim fizeram. Na semana seguinte, foram para Amsterdã e num cartório localizado dentro do próprio aeroporto, se casaram. Vancineusa mudou seu nome para Van Kinesa. O que aconteceu, então? Ninguém sabe. Há quem diga que ela se aproveitou da ingenuidade do pobre Van Coke e deu-lhe um pé na bunda. Há quem diga que ela é que foi a ingênua e agora virou escrava sexual. Eu, como todo bom romântico, prefiro dizer que eles se casaram e viveram felizes para sempre.
Afinal, isto ainda é um conto de fadas e tem que ter um final feliz, mesmo que impossível.
Pétalas
Florescem-lhe sementes,
No coração fertilizado
Do amante determinado
A salvar a sua mente.
Talvez mais que pessoas,
Plantas me estupefazem,
Mesmo enquanto se desfazem
E deixam de ter pétalas boas.
Rosas enfeitam meu parapeito,
Caem como chuva da janela,
Como caem e descem para ela,
As lágrimas do meu peito.
Pétalas da flor que desabrocha
Agora murchada pelo tempo,
Que no seu passo lento
Traz a dor queimando como torcha.
Salada de pétalas,
Pétalas insípidas,
Exalando, tímidas,
Vontades tépidas.
Tem sabor de saudade,
Talvez sabor de morte.
Sabor de amargo corte
Da amarga verdade.
Novo e velho ano
Em uma rotação eterna,
A cada volta faz-se um ano,
Tal qual uma eletrosfera,
Com partículas girando.
Tempo! Eis o que chamamos!
Na mudança de estado,
Desatentos observamos,
E o presente vira passado.
Feliz novo e velho ano.
Feliz tempo inexistente.
Pêndulo foucaultiano,
Em órbita crescente.
Frustrações, que voem!
Felicidades, fixem-se!
E as feridas que doem,
Que logo costurem-se!
Que o passado seja sombra,
E o futuro uma penumbra,
Pois luz presente não assombra
A quem não teme a tumba.
