Castidade Castelar
Bem como mais porquanto cúmulos e acúmulos constantes desencontram, do que surdos e absurdos nos contentam descontestados, ainda ofegantes, a ausência de meu eterno amor. Inominável segredo, e segredo segrego, sincero de conseguinte, outras coisas que não carrego. Agora desperto da morte, desbeijo de possibilidades não raras, lamento às já falsas fugas, desnudas, e desdenho às desnecessárias, mentalidades forçadas às próprias covardias.. Começa algo por aqui. Quanto encanto traz a responsabilidade, quanta responsabilidade traz o encanto.
Além da soberba
Exemplos de inversão equívoca causa/consequência: direito/mérito, desempenho/qualidade, motivos/vontades, valor de troca/valor real, imagem/ideia… Toda contradição teórica é fruto do pluralismo conceitual, seja de tempo, de posição ou de escala. Decorre da falibilidade do discernimento, a capacidade de diferenciar, hierarquizar, priorizar -não, essas palavras ainda não foram proibidas-; O contexto contraditório então consequente, da falibilidade da comunicação, capacidade de objetivizar, conectar, se associar, vai gentilmente pedir uma pedra de rosetta. Mas os presidencialismos vão obrigar seus dicionários partidários. Tanta nobreza no reinado, tanto oportunismo na política…
O reino além do homem
A perfeição, a permanência, a liberdade, a independência, a concentração, o isolamento. Para Deus o ser, para o homem a vontade de ser.
O homem, parcial, provisório, indefeso, imperfeito, quer poder o que quer. Quer chegar na próxima partida.
Choramos um falecido como se ele tivesse sido imortal… Mas a morte de um homem somente é a morte deste homem para nós.
O paraíso é a verdade, o tudo, além do tempo.
Esse mundo perfeito… O mundo das ideias não é o mundo humano.
O mundo humano é um mundo de sonhos.
Humanos são obrigados a sonhar, e são responsáveis pelo que sonham.
Há dever para todo fascínio.
Acidente
De salto, se ignora.
Descanso pousa ou perece,
Dura quanto merece,
Dízima minha por sua prece.
Mas não demore, não se apresse,
Tão logo, tão pode como bem não se acorde.
À sem hora, senhorita, não se faz, obedece.
E se ainda ou embora, o destino se acode.
Papel
Ao menos Papel, assumido e desdobrado, tanto tinto quanto branco, sabe ser o que se propõe, sem negar o que pós se põe, ou mesmo aceitar o que sós supõem.
E no desenho preciso de todo manifesto, sempre bem se sucede em sentido disperso. O disparo de outros é a vitória de si, ainda suspiro socorro seu soprado de mim.
A Origem é a vida, o Destino é a morte. A escolha é sozinha, a esquina é a sorte.
Meu amor não se vai, meu amor não se foi. O passar só revoga os despidos de pois.
…
Eu espero os que esperam, na curva quente do quarto de vela, tripulando bonitezas de som e sentença, até às vezes negando a minha própria presença, encabeçado de enchentes também tempestades, desamparado resisto às enormes voltagens.
…
Mas a vontade, não fortuita, é de gota e centelha, de fato e leveza. Imperativo seu de dentro de mim, Dominó.
Opostas meialuas infectam, os vúlneros com seus sãos desertos;
E a vivaz e distinta em instintos tintos, tanto tenta instituir tua instância instante,
Mas no entanto destino, no então distante, lhe afasta o fastio de fazer farsante.
Após eis que poste luz,
pôde pôr-se pois o sol,
mas por posta foi que pus,
uma ponte a ver lençol.
Corpo sujo
Indescritível, indecifrável, sufrágio máximo do meu amargo.
Eu não me esqueço, eu não vivi, você é a causa do meu motim.
Indesfrutível, indefensável, todo atentado ao seu afago.
Sou castigado pelo passado que te sucede até meu fim.
Guerra e Paz
A chuva cai
perturba o ar seco
poças lembranças
…
O raio some mais do que se vê, o fogo dura mais do que começa.
…
A eternidade é lenta, a permanência rápida.
A vontade é dura, o exercício água.
A vida leva, a morte traz
A gente espera, ou mesmo faz
…
Chão molhado
rastro de sucessão
evaporando
Quarto de vela
Uma janela fenda
Um assobio, uma chama
Uma recusa proba,
Uma parede santa
Sobre saia, parta-me
Seu suor capilareria
Se for minha parte sim
Só então nunca se estaria.
Hipótese romântica
Presta atenção.
Paralelismos concorrem à condução, interceptos de suas tangências precisas.
Um dois se espera, se esmera em vão, pois outro se apodera da primeira legítima.
Rarefeito de quebra e quadrado de si, rachou seu olhado entre nada e a mesa.
E “Antes fosse que passe esse frio daqui!” enamorou mei-nervoso à sussurra princesa.
Diagnóstico e prescrição por um jovem adulto
Pode-se perceber na arquitetura o novo paradigma de conduta social. O lado de fora é seco, cinza, omisso, sem vida, em respeito ao senso estético dos outros. Já o lado de dentro varia de acordo com o senso de seu proprietário. Será esse modo o mais agradável para o convívio social? O recolhimento? Creio que não. Entendo que a arte deva celebrar a humanidade e não escondê-la. Ora, quando se caracteriza uma cidade turística como bela, certamente não é por seus prédios novos e arranha-céus, mas pelos seus antigos e ainda, novos com bagagem antiga. O desespero pela “democratização” da beleza fundou a ditadura da simplicidade, não em trabalho de sofisticação mas em representação fiel a atributos evidentes da maioria, ignorância e descompromisso. Se percebe censura, no Brasil de hoje, a tudo que é complexo, que tenha origem, que se baseie no passado para transceder o momento. Aperfeiçoando, tudo que supere ou guie os apetites presentes além do instante. É proibido construir. Uma estratégia bastante conveniente para os amantes do poder pelo poder.
A vida pública se tornou algo frio, mercenário e sem propósito verdadeiramente público, quando se distanciou da identidade local e regional, transferindo sua responsabilidade de auto-determinação à esfera geograficamente abstrata da União. Agora é proibido interpretar a vida por conta própria. É proibido escolher elementos para significá-la. Isso é papel dos mercenários. É obrigatória a ignorância da própria sensibilidade em relação à vida humana, independente de onde você considere que ela comece. A vítima de um crime é culpada por denunciar um criminoso se esse criminoso possui condição econômica inferior à da vítima. Por aqui defende-se que todo criminoso de baixa renda seja um animal irracional e por tanto irresponsabilizável por seus atos. É interessante verificar, entretanto, que os idôneos encontrados nessa mesma condição econômica milagrosamente consigam realizar tarefas de cunho racional.
Algumas coisas também se fazem indenfensáveis publicamente como, por exemplo, ter por objetivo a constituição de uma família. Se tem, por imposição, que esse tipo de associação seja algo ultrapassado, devendo o cidadão moderno correr atrás de satisfazer suas necessidades “fisiológicas” sem qualquer expectativa de futuro. Tentam frequentemente declarar, como se assim fosse tornar científico, que o amor é mera ilusão. Melhor dizendo, que qualquer vontade de associação é uma patologia, sob a justificativa de sermos seres completamente imprevisíveis, inconfiáveis e desprovidos de razão. Essa imposição cultural nos imputa solidão tão profunda que acaba por consumir toda vontade que temos de ser um sujeito, nos convidando a alienar nossa liberdade, identidade e propriedade a qualquer manifestação de sujeito. E como tudo ou a maioria das coisas que acontecem no nosso país é responsabilizado ao Estado, existe um risco real, se não agora, em breve, de autoritarismo legitimado.
Esse quadro sombrio só pode ser resolvido com uma mudança drástica de infraestrutura espiritual da sociedade.
Pra começar, as pessoas vão identificar o que é mais questionável e o que é menos questionável, o que é permanente e o que é passageiro. Depois perceberão que são passageiras, imperfeitas. Assim, olhando que se baseiam no passado, vão entender que o mesmo é perfeito e que dentre várias possibilidades, a liberdade se exercitou em uma direção específica, privilegiada. Disso elas deduzirão que exista, inclusive anterior a elas, uma ordem predileta da qual partiram e agora integram. Perceberão pois que apesar de serem consecutivos, também são causais, se perguntando em que direção derramarão suas potências. E por fim se responderão na preservação e reprodução da mesma Ordem.
Ainda
Ânimo, antes âmbar a ardente, atravessando atrás anil andante, à ausente afresco.
Amparo ambas abas além, até ancorar.. Ainda absorvendo angelical arte, aspiro antecipar algum ato aparte.
Autêntico astro, apenas argumento, atônito, atento: ao amar agora atentará alguém, ao amar afora atirará em mim..
Atenda à aposta, aguente acordada. Assuma a aflora, aceite a alvorada.
Água amante, água amena. Água amiga, água apenas.
Apelo assim à alma amada, ainda não.
Angústia e resignação
Pulsa dentro de mim a angústia,
escorre as paredes de minha capela.
Meu peito se distorce em recusa,
mas meu coração ainda o espera.
O estômago saboreia o abraço do veneno,
e os pulmões aguentam a chuva, por já impossível o seu redento.
Eu não vim em paz, mas não partirei também em guerra.