Delírios Paranóicos – Episódio 1 – Parte 2

2009 Julho 1
by L'enfant Terrible Pango

Essa é a última parte desse episódio. O próximo será escrito por vik, e vai tratar sei-lá-do-quê, e depois será a vez do Andro.

Por sinal, essa parte do episódio também tem base em fatos reais. Base. Não espere muito mais que isso.

×××

Delírios Paranóicos

Episódio 1- Imersão no Complexo Alfa

Narrador: Pango

Parte 2 – Caçando um Bode

Seguindo minha rotina indefinida, acordo às nove da manhã no dia seguinte.

Calmamente me levanto e escancaro a porta do quarto do meu irmão. Prendo a respiração, e sem cerimônias vou até sua mesa e pego os exemplares de Neon Genesis Evangelion, que à esse ponto, já perderam todo o pó sonífero.

Meu irmão não se move, como eu esperava; o pó já deve estar inundando seus pulmões. Demorará alguns dias para acordar.

Vou para meu quarto, e inicio minha investigação.

Certamente meu adversário, Bode, deve ter deixado alguma pista. Uma digital, um cabelo, células da sua pele morta…

Escaneio todas as páginas, e nada. Nenhum registro de sua presença ou de seus atos.

Procuro nas bordas das páginas onde ele as seguraria , procure perto do centro da revista onde o cabelo cairia e ficaria preso, até na capa que talvez ficasse com um pouco do seu suor, e nada; ele deve ter usado luvas, touca, ou, quem sabe, uma pinça para passar as páginas

Vou até meu banheiro e pego um dos tubos de ensaio vazios que uso para filtrar tinta a base de carvão.

Tiro meus óculos, e início o procedimento. Cuidadosamente, arrasto a borda dos tubos pelas páginas, coletando, assim, um pouco do sonífero.

Depois de pegar amostras individuas de cada edição, pego mais um tubo de ensaio e deixo no quarto do meu irmão; o sonífero no ar certamente entrará no tubo de ensaio.

Lacro os tubos hermeticamente, com rolhas, e as identifico com adesivos. No primeiro, escrevo “EVA IM 1”, no segundo “EVA IM 2”, no terceiro “EVA OR 3”, no quarto e quinto coloco “4” e “5” respectivamente porque estou com preguiça.

Então, ouço uma voz em minha mente. Arrastada, invasiva e um pouco feminina, ela exclama somente uma palavra; “Will”. Eu ignoro a voz completamente, continuando com meu trabalho de organização.

Volto para o quarto do meu irmão, pego o tubo de ensaio e marco-o com “Dep L”, que significa “Depósito de Lixo”.

Guardo todos os tubos na minha caixa de evidências, que é uma pequena caixa de couro na minha mesa, perto da janela, onde o sol bate, assim aquecendo as amostras. Pego uma das máscaras cirúrgicas que eu guardo para o caso de uma pandemia, coloco-a e início a leitura dos meus recentemente adquiridos exemplares de Neon Genesis Evangelion: Iron Maiden 2nd.

Enquanto leio, não paro para ponderar o motivo de não ter usado a máscara cirúrgica antes, ou o motivo para eu não possuir uma máscara Guy Fawkes, que é um pecado maior ainda.

Após alguns minutos, termino de ler a primeira e passo para a segunda, e assim em diante, tendo o cuidado de não ler a terceira, que é da outra série, e parando na quinta, já que não possuo a sexta.

Respiro fundo, e começo a massagear minhas têmporas. Pego uma seringa, coloco a agulha, e pego uma amostra do meu sangue.

Ele está levemente rosa.

Chego à conclusão que o teor de super-drama escolar nesta publicação está acima de nove mil, e que é perigoso para minha alma continuar lendo.

Então, tudo se encaixa na minha mente.

Meu adversário, Bode, adquiriu todos os portais para Paranóia da cidade sem deixar registros acessíveis. Depois, ele rearrumou as edições de Evangelion da Reinos, de forma que eu visse a edição da série original, e pegasse, conseqüentemente, também as da série Iron Maiden, que estavam do lado da edição original.

Após isso, ele sabotou uma das mesas próximas da Reinos. Provavelmente, já sabendo que o investigaria, traçou meu perfil psicológico e calculou a movimentação do Sol, assim eliminando 90% das mesas que eu poderia usar.

Então, enquanto eu estava fora, ele entrou na minha moradia e roubou meus copos, assim conseguindo amostras do meu DNA, e de quebra, mexeu no meu computador, aumentando o volume do barulho da inicialização do Vista e fazendo meu computador ser reiniciado.

Brilhantemente malévolo.

Nesse momento, me lembro de mais um detalhe. Na noite anterior, enquanto usava o computador, a energia acabou, assim me impedindo de continuar a investigação.

Rapidamente, começo a investigar a Internet e Extranet, procurando o motivo da falta de luz.

Então, uma voz na minha cabeça fala “O poste de luz!”. Eu a ignoro, mas logo em seguida ouço outra que diz “Eba, maconha!”, o que me faz prestar atenção na primeira voz.

Sim, como é óbvio, talvez seja algo envolvendo o poste telefônico.

Rapidamente corro pela casa, checando todas as janelas, e passando direto pela minha mãe, que era aparentemente a dona da voz que me avisou sobre o poste de luz.

Então, usando meus olhos biônicos e míopes, e avisto minhas suspeitas materializadas; o poste de luz do outro lado da rua estava danificado.

Mais um atentado de Bode.

Mais um atentado irrastreável; eu nunca conseguiria descobrir qual carro batera no poste, o database do governo brasileiro é muito protegido, e o acidente era pequeno demais para aparecer num telejornal.

E mesmo que eu conseguisse a informação, muito provavelmente ele deve ter utilizado um carro roubado, ou talvez ele tenha cúmplices, ou… Ou pior. Talvez ele tenha feito lavagem cerebral nos cúmplices.

Percebo, nessa hora, que meu adversário tem muito mais recursos do que imaginara.

E afinal, qual seu objetivo?

Eu não faço a mínima idéia. Talvez seja melhor eu fazer uma lista de suspeitos primeiro.

Primeiramente, temos Wendell. Ele tem acesso às revistas da Reinos, tem o Cartão Amigo, e tem cara de alguém que poderia arrombar um carro…

Então, algo vem à minha mente. Os saquinhos usados para cobrir as revistas das Reinos podem ser usados várias vezes, já que é um saco normal com durex para evitar a circulação de ar.

Se alguém tiver colocado o sonífero na Reinos, se for o Wendell, provavelmente o durex estaria intacto, já que eu as abri com muito cuidado, e porque ele colocaria o sonífero antes de embalar.

Se o sonífero foi colocado depois, a chance do durex estar violado seria muito maior!

Pego o exemplar de Evangelion Original 3, que ainda não li, e cujo plástico estava perfeito. Nada. O durex está intacto, e havia sonífero.

Porém, percebo que nas bordas, há durex, o que não é normal. Usando alguns dos meus produtos químicos, retiro-os, e percebo que há minúsculos furos no saco. Perfeito.

Ninguém perceberia esses furos normalmente, então, o sonífero deve ter sido colocado depois, já que Wendell provavelmente pegaria um saco perfeito para evitar o vazamento do sonífero.

Obviamente, eu ignoro completamente a possibilidade do durex servir para re-ajustar o tamanho do saco, já que tudo que vemos é uma ilusão causada pela distorção do espaço-tempo que a massa causa.

Mais uma vez, estou na estaca zero.

Sem suspeitos.

Percebo que estou andando em círculos.

Eu tenho que esperar que ele faça algum movimento. Eu ainda não tenho indícios fortes, e até agora, ele não cometeu nenhum erro verdadeiro.

Nessa hora, recebo, convenientemente, uma mensagem.

Do Sr. Andro.

Obviamente, eu não paro para pensar como um dinossauro como o Andro escreve um e-mail, e, obviamente, meu rosto não esboça reações. Friamente, clico no e-mail, tentando parecer o máximo possível com o Roscharch, e falhando miseravelmente.

O e-mail está vazio.

Tudo que há nele é um anexo, um arquivo em .rar. Inicio o download após alguns minutos, depois do Gmail ter feito seu scan de vírus rotineiro.

O arquivo é grande, e não possui nome.

Nesse momento, percebo como já vi essa situação várias vezes.

Eu estou fazendo download de um arquivo numa sala escura, úmida e fedida. O computador tem mais de um monitor. Uma das luzes pisca à lá Half-Life, dando uma atmosfera bem surreal. Eu não ouço carros passando pela rua à minha frente. No armário perto de mim, tem uma caixa de ferramentas prateada. Dentro dela, há chaves de fenda, uma furadeira, peças, esse tipo de coisas, mas algo tem um valor especial naquela caixa, algo que é muito mais importante que aquelas patéticas e pesadas ferramentas; um pé-de-cabra.

E o mais importante, e que já citei; estou fazendo um download.

Eu já vi esse cenário antes. Eu caí numa emboscada.

Corro para a caixa de ferramentas, e tento abri-la. Ela está trancada. Um misterioso e complexo mecanismo me impede de abri-la. Eu preciso da Chave Azul, ou Vermelha, do Armário, ou um Martelo +3 para abri-la. Percebo que não tenho nenhum dos itens.

Ouço passos. A horda de zumbis se aproxima, e eu só tenho minha arma e vinte e cinco balas; não tenho ervas verdes, azuis, ou vermelhas, muito menos tenho elixires. Eu não sobreviverei se não conseguir o pé-de-cabra.

Tiro a caixa de ferramentas do armário, e coloco no meio do Escritório. Pego uma das cadeiras, e bato incessantemente nela.

Infelizmente, a cadeira não tem as mesmas propriedades do Martelo +3, nem de uma Bomba, então não consigo abri-la. Porém, percebo que, se estou segurando a cadeira, posso usá-la como item. Isso é uma epifania, me parece. Durante esse momento de extrema dúvida do funcionamento da realidade, me concentro, e usando minha capacidade mental estupendamente questionável, coloco-a no meu bolso. Ela cabe, não consome espaço, e não me sinto pesado.

Percebendo as possibilidades disso, volto pro armário. Pego todas as roupas, sapatos (até os que não são meus), lençóis, toalhas, e tudo que é macio, e o cofre, que certamente não é macio, e coloco no meu bolso portal-para-outras-dimensões. Por último, volto ao Escritório e coloco a caixa de ferramentas no outro bolso.

Tiro a cadeira do meu bolso, e quebro uma das janelas. Alguém está batendo na porta.

Estou prestes a pular da janela, quando percebo o óbvio; o computador ainda está ligado, e o pior, logado nos meus e-mails!

Eu volto, e vejo que o download está pronto.

Sem hesitar, tiro o computador da tomada, e coloco o teclado, o gabinete, e os monitores no meu bolso. Também pego a impressora porque eu sou do mal.

Então, pulo da janela, logo quando meus perseguidores abriram a porta.

Eu não vejo seus rostos, nem eles vêem o meu.

Enquanto caio em queda-livre do décimo terceiro andar, percebo que talvez eu tenha agido de forma impulsiva.

Eu quebrei a janela do meu Escritório. E desliguei o computador da tomada; talvez arquivos tenham sido perdidos! Isso foi muito impulsivo.

Depois, percebo que eu acabei de descobrir como usar portais inter-dimensionais. Isso, ou, meu casaco azul encardido, que é o que eu estou usando agora, sempre foi mágico, e nunca percebi.

Eu decido utilizar uma terceira hipótese; meu casaco é avançado demais para minha mente compreender sem os instrumentos corretos.

Enquanto passo rapidamente pelo sétimo andar, percebo que é deveras irônico que eu more no décimo terceiro andar.

Quando passo pelo quarto andar, tiro meu casaco.

Quando estou no terceiro, coloco minha mão no bolso do casaco.

No segundo, já coloquei metade do meu corpo.

Enquanto adentro na misteriosa dimensão que é meu casaco, grito meu mantra:

“Pela Ciência!”

Enquanto caio, uma mulher grita, vendo meu corpo seguramente entrando no casaco: “Ele vai cair porra!”

Bobinha, penso no momento. Eu não vou cair. Eu vou simplesmente entrar no casaco, e ele vai cair calmamente no chão, assim me protegendo do impacto.

Quando o casaco toca o chão, já estou seguro dentro da sua dimensão, e nada sinto, fora um enjôo tremendo.

Eu tenho que lavar esse casaco. Que horror.

Depois, calmamente saio do meu casaco, como se estivesse saindo do chão.

Após alguns minutos, uma multidão começa a se formar no lugar onde eu deveria ter caído. Eu sei disso porque eu estou na multidão, com meu casaco seguramente guardado no bolso da minha calça, que também é, aparentemente, um portal para outra dimensão.

Enquanto mandam algumas pessoas para o sanatório no final da rua, eu fico calado, somente observando.

Minha vida é um jogo de point-and-click, isso não me é novidade. O que realmente me surpreende é como isso tudo é útil; agora, eu posso… Fazer… O…

Merda.

Eu deixei as evidências, as amostras de sonífero no meu quarto. Droga. Bosta. Eu ainda não tinha percebido que eu tinha portais inter-dimensionais à minha disposição.

E eu tenho que fugir, eles devem estar me procurando. Bode deve estar me procurando.

Pego meu casaco, e tiro um par de mocacins pretos que me parecem muito confortáveis. Tento colocá-los, e logo percebo que pertencem ao meu pai; são muito pequenos para meu pé enorme.

Vasculho os bolsos, procurando sapatos que me sirvam, e ignorando completamente as pessoas que assistem ao meu lindo espetáculo de tirar sapatos do bolso do casaco.

Enfim, acho um dos meus tênis, coloco-os, e corro.

Corro pela minha vida.

Corro por Paranóia.

Corro para chegar na padaria antes que o pão esfrie.

A caçada, Sr. Bode, começou. Se prepare, pois agora estou pronto.

Fim

2 Respostas leave one →
  1. 2009 Julho 2
    Mestre JeDi, O Vilão Do Bem permalink

    Ri muitissimo na parte do martelo +3

  2. 2009 Julho 3
    Gabriel Vaskonvinsky permalink

    Se depois de ler este relato você também ficou se mordendo por um Casaco Interdimensional (R)… Chega dessa paranoia!! Você pode adquiri-los por apenas algumas pratas no mercado negro do Complexo Alfa, localizado e devidamente camuflado na área mais periférica dos domínios do nosso amigo Computador: o setor WTF.
    Desenvolvidos com tecnologia do Ás das viagens espaço-temporais, Bub-V-WTF-1, os Casacos Interdimensional (R) são totalmente seguros e quase tão úteis como uma toalha, além de confortáveis e aconchegantes, perfeitos para os dias frios do inverno do Complexo Alfa.

    Casacos Interdimensional (R) – dimensões paralelas ao alcance das suas mãos.

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