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Ruínas Humanas

06/07/2011
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Centenas de pessoas bonitas andando pelos shopping centers, tão belas e perfeitas que mal permitem se olhar ou tocar. Embora as roupas, os rostos e os cabelos sejam diferentes, elas serão iguais num ponto: terão uma aparência invejável aos nossos padrões atuais, tão humanos e falíveis.

Já não se vende mais nada que cause mal. Cerveja? Engorda, ninguém mais compra. Hambúrgueres? Só de soja e olhe lá, só com óleo natural extraído sem gorduras. Refrigerantes? Esses xaropes de açúcar, corantes e acidulantes, que entorpeciam nossas crianças a rejeitarem coisas mais saudáveis? De jeito nenhum.

Falando nas crianças, talvez elas não sejam mais crianças. Já não há mais aquelas típicas brincadeiras infantis nas pré-escolas. Não há mais carros de brinquedos ou nenhum sinal de bonecas nos quartos. Não são mais elas que vivem correndo de um canto ou outro nas igrejas ou nas reuniões de trabalho, mas são elas que ficam sentadas, perdidas em seus mundos virtuais. Não há mais amigos de infância, aliás, não há mais amigos por que não se pode confiar em mais ninguém. O amigo de infância é aquele que sabe das suas fraquezas, e isso não é bom pra ninguém.

Ninguém mais precisa trabalhar. As tecnologias derrubaram de vez a utilidade que certas pessoas antes possuíam. Essa legião de desempregados poderiam estar nas ruas, poderia se dizer, mas de fato não há ninguém nas calçadas, somente carros que correm velozmente de um ponto ao outro. Falando em calçadas, elas ainda existem, mas estão pouco a pouco desaparecendo. Dizem que há ladrões e criminosos nas ruas, armados até os dentes e desejosos de matar e violentar inocentes para possuir qualquer coisa que lhes convém. Não muito diferente dessas pessoas normais, que não agridem os passantes mas agridem a si mesmas para fazer o mesmo.

Prédios gigantescos como montanhas sobre montanhas se erguem de um solo cada vez mais exausto e frágil. Cada janela, uma história de vida que pouco aconteceu. Não há mais por que trabalhar, mas é preciso estar sempre ocupado para evitar que chegue-se a conclusão de que “nós todos somos inúteis”. Faça qualquer coisa. Liguem a televisão ou a internet. Sexo hardcore, pornografia, isso não é mais chocante. Num só prédio, há mil apartamentos e ninguém se trata de abrir a porta.

Refúgio na natureza?  Impossível. A mancha urbana já se espalhara como uma colônia de bactérias infectando o corpo cada vez menos nu da terra. As crianças? Muitas delas só viram árvores nos desenhos. É a Era da Solidão: num ambiente cada vez mais empobrecido, o Homo sapiens sapiens se vê cada vez mais sozinho de uma Terra já cansada.

Nessas condições, o suicídio não é raro. Chega até mesmo a ser um protocolo. Caso alguém se desconecte por mais de 24 horas, já se sabe: ou enlouqueceu ou morreu ou se matou. Pelo menos, há alguma esperança… Aquelas fotos de 50 anos atrás guardadas nos servidores digitais mundo afora, a única prova de que tudo um dia foi diferente,

Só o que restou, ruínas humanas.

 

Um Comentário leave one →
  1. jolushi Link Permanente
    07/07/2011 11:56

    Ah, meu amigo. O seu melhor texto ao meu ver. Jornalístico sem perder a sensibilidade. Se eu pudesse continuar essa história, eu buscaria “a esperança dos prés”. Eles estão espertos e carentes. Isso geralmente trás boas soluções. =)

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