Stella was a diver and she was always down
Ela chorava. Ela chorava e que mergulhava de cabeça no oceano das minhas vergonhas. Mergulhava feroz, com uma agressividade controlada, sublimada em paixão. Porém, ao mesmo tempo, chorava. Ameacei parar, mas ela implorava cega por isso, desafiava a minha masculinidade não-merecedora de tamanha tortura moral. Oh, como eu queria que ele desmanchasse! para que eu não me submetesse a um prazer tão culposo.
Consigo retomar o controle do meu corpo e então me afasto. Ela, porém, segura a minha perna e quase me perfura com suas unhas grandes, me fazendo gritar por um segundo e cair no chão. Nem mesmo as longas franjas de seu cabelo escuro e assanhado escondiam a tristeza e a urgência daquele rosto que agora se erguia do vão entre meus pés. Seu rosto, outrora branco, estava vermelho e molhado. Veio rastejando rápida até mim de quatro, tão rápida que mal percebi que seus lábios, borrados de batom vermelho, já estavam a uma distância desprezível dos meus. Seus olhos azuis, assim como o rosto, também estavam vermelhos e chuvosos. Por um segundo, pensei que eles largariam um dilúvio para me punir por um tipo de prazer tão baixo, por extrair endorfina de seu sofrimento.
Sim, aquilo era-lhe um fardo. Ela mergulhou em mim não por prazer, mas por necessidade, por uma terrível obrigação fisiológica. Era uma mergulhadora compulsiva, já fora em todos os mares e lagos possíveis, mas não conseguia nunca estar em terra firme. Mal saía de uma lagoa, já partia para a próxima. Desnecessário dizer que mergulhadoras não eram bem vistas pelos rapazes.
“Por favor… Não me deixe…” sussurrou-me, enquanto punha seu rosto ao lado do meu, seu queixo no meu ombro. “Por favor, por favor!…” dizia, enquanto chovia mais um pouco. Seria-me fácil livrar-me daquela situação, se não fosse um entrave: eu gostava dela. Sua fragilidade, seu corpo perfeito tomado pela tristeza de uma neurose. Sim, ela era bonita, mesmo em cada imperfeição, em cada sarda ou sinal. Uma voz fraca, mas esperançosa, que pairava minha cabeça dizia que eu era um homem viril o bastante para lhe satisfazer e curar-lhe neurose. Uma idéia ridícula, claro, mas que era bastante prazerosa, uma vez que eu não era grande coisa. Eu não tinha grandes músculos, era magro com uma barriga meio saliente.
“Por que eu não deveria?” perguntei, dessa vez, enquanto passava a mão pela lateral de seu torso e acariciava uma tatuagem que havia naquela região, ansiando pelas palavras que eu queria ouvir.
No entanto, ela apenas pegou minha mão e pressionou suas unhas contra a minha palma. Tudo dela era assim, implícito. Não podia dizer se era verdadeiro ou mentira o que dizia. Não, não sou desses que espalham aos quatro cantos do mundo que as mulheres não são confiáveis ou mentirosas. Os homens é que confiavam muito nelas, achando que elas não são vítimas embrutecidas pelo tempo e pela erosão, rios que não sofriam da poluição.
“Mas… o que eu tenho de especial?” perguntei outra vez.
“Você recuou.”
“Ah… isso?”
“É. Ninguém nunca fez isso.”
“Você estava chorando, Stella.”
“Eu sei… me perdoe” e ela se jogou em meus braços. “Não faço isso por que quero, é uma compulsão… Sinto que algo precisa preencher o meu vazio” e tornou a chorar de novo.
“Eu gosto de você” falei, meio que sem pesar as palavras e suas hipotéticas conseqüências. Por um segundo, desejei que ela não levasse essas palavras tão a sério.
“Você e todos os caras falam isso… Mas falam que eu sou uma vadia, pelas costas. Você deve me achar uma, né?” questionou-me, soluçando e me deixando num dilema. Ora, sabia que a culpa não era dela, no entanto, ela causou-me uma primeira impressão que era difícil de mudar. Já se quebraram todos os preconceitos, menos o de um homem para com uma mulher conhecida por muitos. Por outro lado, os outros deveriam ter respondido que não.
“Não me importo com isso”
“Sério? Você me entende?”
“Sim” eu a entendia, embora achasse o que ela fazia desagradável. Mas deveria haver um motivo, motivo que poderia ser superado. Eis então que ela me abraça, um abraço caloroso, gentil.
Eis que olhei para o relógio. Era quase hora de ir. E a dúvida ainda navegava em meu mar. Mas juro que vou lutar.
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